Os impasses com os quais o analista principiante se depara no início da prática clínica são muitos, e uma instituição de psicanálise que se dedica à transmissão de sua práxis precisa acolher e possibilitar o encaminhamento dessa questão tão real quanto urgente.
Como escutar a fala do paciente sem que essa escuta se torne uma psicoterapia ou uma conversa social? Qual valor das entrevistas preliminares? Como manejar a transferência, sustentando o sujeito-suposto-saber sem se confundir com ele? Por que a associação livre e sua contrapartida - a atenção flutuante? Enfim, quais as principais balizas teóricas que norteiam a escuta e as intervenções do analista?
Esta proposta de uma Roda de Conversa sobre a Clínica não se confunde com uma supervisão, nem pretende substituí-la. A ela estão convidados todos aqueles que no exercício da clínica psicanalítica se virem convocados ao desafio de articular a clínica com a teoria.
Pensada para aqueles que estão no início da prática clínica da psicanálise, esta atividade também se destina àqueles cuja experiência já pode - e deve - ser partilhada.
A Roda de Conversa Sobre a Clínica pretende discutir os parâmetros técnicos que a teoria fornece como indicadores relevantes para o manejo transferencial de modo a tornar operantes a escuta e a intervenção do analista. Como o próprio título anuncia, será uma conversa a partir da clínica de cada um dos participantes, a partir das questões suscitadas na lida com seus pacientes.
Não se trata de supervisão, pois a supervisão é ato equivalente à análise, tratando-se, no caso da supervisão, da análise da clínica daquele analista e não de sua análise pessoal. A clínica, ao ser relatada ao supervisor expõe os possíveis pontos cegos - ou surdos - do analista. O supervisor não é senão um analista ouvindo um relato com a mesma atenção flutuante com a qual escuta seus analisantes. Decorre disso que a supervisão deva ser individual como a análise, para que se preservem e respeitem todos os parâmetros vigentes numa análise pessoal. De uma supervisão espera-se a depuração de todo invólucro imaginário que coloniza a fala e a escuta, que arrisca transformar o encontro que deveria ser analítico, num encontro terapêutico ou mesmo numa conversa entre amigos.
Em nossa proposta de uma Roda de Conversa, de cara já está posto que se trata de uma discussão da clínica de modo coletivo e não privado. Ali os analistas principiantes se dirigem aos outros, a seus pares. Não se trata de relatar um caso, mas de uma conversa sobre algum ponto específico da prática diante do qual o analista principiante se experimenta limitado naquilo que poderia ser sua intervenção. Isso é muito comum nos tempos do início. Muito embora o analista nunca saiba o que faz, ele tem sempre que saber por que o faz. Será a teoria que proverá ao analista as razões de seu fazer.
A sensação de estar completamente perdido diante do universo que se abre com cada paciente recebido se deve ao fato de a prática avançar mais depressa do que a formação teórica, o que não poderia ser diferente. A formação do analista se apoia na própria análise pessoal, no estudo da teoria, além da supervisão. Essas três frentes demandam tempo, um longo tempo, e a prática da clínica começa toda lá, logo de uma vez. As queixas, as demandas, a transferência, os sonhos, enfim, o inconsciente em toda sua exuberância, o real em toda sua impossibilidade e o imaginário com suas máscaras, tudo já está lá desde que o analisante abre a boca e fala esperando ser lido por um analista que, todavia, está tão perdido quanto um analfabeto diante de um livro aberto. Essa experiência precisa ser dividida com os pares, com aqueles que vivem esse impacto e que partilham a mesma escolha teórica, exigindo ser minimamente encaminhada por colegas já mais experientes que possam apontar balizas conceituais que norteiem a escuta segundo o referencial teórico que o analista principiante provavelmente já escolheu, mas do qual ainda não se apropriou. A Roda de Conversa Sobre a Clínica se torna assim um modo inicial de produzir teoria, ou no mínimo, conectar a teoria à clínica, missão que será aquela do analista durante toda sua vida profissional. Ser um clínico da psicanálise exige que a teoria analítica seja recriada a cada novo caso.
O saber teórico não se restringe ao conhecimento dos textos da psicanálise. A clínica tem que andar junto com a reinvenção da teoria, caso a caso, e isso se faz no endereçamento aos pares, nunca na solidão autista. A clínica não se sustenta sem essa conexão viva com a teoria, conexão que se exerce na instituição de psicanálise, locus de uma coletividade. Freud, na “Psicologia das massas e análise do eu” (1), define a coletividade como um grupo formado por relações recíprocas de um número definido de indivíduos, ao contrário da generalidade, que se define como uma classe que compreende abstratamente um número indefinido de indivíduos. Será em referência a essa definição de coletividade que Lacan irá propor uma lógica da coletividade que define o “coletivo como não sendo senão o sujeito do individual”(2). Ao apontar a localização da subjetividade no coletivo, Lacan indica que a formação do analista - a transmissão da psicanálise, portanto – exige as relações recíprocas entre os membros de um coletivo, pois essa formação implica necessariamente numa refundação subjetiva.
(1) Freud, S. "Psicologia das massas e análise do eu". In Obras completas. Vol 18. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
(2) Lacan, J. "O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada". In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
Inscrições
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Informações sobre valores e agendamento:
Telefone: (19) 3232-4278
WhatsApp: (19) 99452-6951
Informações da Atividade
- CATEGORIA:Seminários
- COORDENAÇÃO:Regina Steffen
- QUINZENAL:1ª e 3ª Sextas-feiras
- HORÁRIO:11h às 12h30
- INÍCIO:06/03/2026
- MODALIDADE:Online (Google Meet)